Como professor brasileiro finalista do “Nobel da Educação” consegue engajar os alunos em suas aulasLeitura de 10 minutos

Agenda Edu 22 de fevereiro de 2017
Finalista Nobel da Educação

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Como professor brasileiro finalista do “Nobel da Educação” consegue engajar os alunos em suas aulasLeitura de 10 minutos

Wemerson Nogueira, de apenas 26 anos, é um dos 10 finalistas do Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação, que reconhece as mais inovadoras práticas educadoras ao redor do planeta. O projeto que levou o professor a final se chama “Filtrando as lágrimas do Rio Doce”.

 

Comovidos com a situação das vítimas afetadas pela tragédia de Mariana, em Minas Gerais, na qual deixou a água do Rio Doce inutilizável, seus alunos  desenvolveram um filtro à base de areia que deixa a água transparente, própria para o uso doméstico e agrícola.

 

E hoje você poderá conhecer mais um pouco sobre o jovem professor, que através de sua ideias inovadoras tem o reconhecimento profissional e o carinho de seus alunos, sendo a motivação de muitos deles.

 

 

Confira a entrevista.

 

Já sonhava em ser professor? Como surgiu o interesse pela profissão?

Quando estudava no ensino fundamental, a minha professora, Penha Cimadon, sempre me incentivou a ser um aluno monitor nas aulas dela, eu era muito imperativo, sendo assim, não ficava quieto um segundo na sala de aula. A fim de melhorar o meu comportamento, ela me responsabilizou em ajudar os alunos que tinham dificuldades, assim, eu teria que me dedicar para aprender tanto para mim, quanto para ensinar meu colega. Durante esse processo de monitoria nas aulas dela, eu me deparei com um aluno chamado Thiago Sales, ele era de família simples, e sofria muito com a violência vivida em casa, seus pais estavam envolvidos com drogas, e ele não tinha muita força para se dedicar aos estudos. Sendo assim, eu comecei a monitorá-lo para ajudar a render mais nos estudo, foi então quando nasceu uma amizade, e um dia no recreio escolar Thiago confessou tudo que estava vivendo na sua casa. A partir daí, vi a extrema necessidade de me dedicar com seriedade e tentar ajudar meu colega a ter boas notas e ser um bom aluno. Anos se passaram e durante o ensino médio, a Penha, também foi minha professora, e lá, por sorte, continuei com a função de orientar alunos. O Thiago continuou estudando comigo e vi bons resultados na vida escolar dele, suas notas melhoraram e seu comportamento mudou.

Quando terminei o ensino médio, sonhava em ser médico, mas as condições financeiras não eram muito boas. Minha família é do interior, até hoje meus pais são agricultores, então, tinha que optar por algo que estivesse ao meu alcance, foi então que tive a oportunidade de estudar licenciatura a distância e iniciei o curso, pois as mensalidades eram acessíveis para meu pagamento. Optei também por licenciatura pelo fato de ter tido uma boa experiência com meus colegas em sala de aula, principalmente, com o Thiago, que monitorei durante um bom tempo, e hoje também se tornou um professor e colega de trabalho.

 

De suas experiências em sala de aula, qual delas considera mais significante?

Durante esses 5 anos na educação, desde 2012 em sala de aula, eu diria que tive diversas experiências marcantes, porém a que eu gostaria de destacar como maior relevância foi quando cheguei na minha primeira escola para trabalhar em 2012, e logo de cara, entrei em uma unidade escolar inserida em uma comunidade periférica, com alto índice de criminalidade envolvendo alunos e familiares de alunos. A escola não tinha nenhuma perspectiva de futuro na vida deles, eram crianças de 11 e 14 anos que olhavam para o espaço escolar como um ambiente hostil. Os meus colegas, professores, já me alertaram no primeiro dia de aula: “Cuidado! Aqui você pode receber uma bala perdida.” Aquilo me deixou intrigado e ao mesmo tempo fez nascer o desejo de um desafio a ser superado. Fui para casa, e no dia seguinte, após passar a noite em claro, pensando numa estratégia para ajudar a escola, cheguei para direção e propus a fazer algo para mudarmos aquela realidade, a diretora disse que não teríamos bons resultados, os professores riram de mim e me chamaram de “José, o sonhador”, eu então, pedi a todos que me dessem uma única oportunidade, e iria mostrar para os alunos a real importância de estar em uma sala de aula, a importância do espaço escolar na vida de uma comunidade, e então durante um período de 2 anos, transformei junto com os meus alunos, professores, gestão escolar e comunidade a pior escola da cidade em uma das melhores do estado. Isso marcou muito a minha vida profissional, pois realmente vi que o meu papel como professor estava sendo cumprido, pois podia colher os bons resultados.

 

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Para você, qual é a principal dificuldade que um docente enfrenta no dia a dia? E o que é mais gratificante?

A maior dificuldade de um docente no dia a dia é a falta de infraestrutura que enfrentamos nas unidades escolares de todo o país. Isso impossibilita de muitos professores desenvolverem ações que podem promover a melhoria na aprendizagem dos nossos alunos. Porém, o que encontro de gratificante na profissão é que mesmo com toda essa dificuldade existem professores que lutam em meio as dificuldade para promover ações que motivem seus alunos a estar no ambiente escolar, utilizando os recursos que temos disponíveis.

 

Como você torna a experiência da sala de aula em algo inovador para seus alunos?

Eu tento mostrar para os meus alunos que a escola é o melhor lugar para se tornar um cidadão do bem, capaz de transformar o mundo, acabar com a violência, gerar paz, amor e construir, cada vez mais, conhecimento. Mostro para os meus alunos que não estou na sala de aula para ser como aqueles professores que não estimulam os estudantes, que entram, fazem a chamada e vão para o quadro passar a matéria e logo em seguida explicar (Infelizmente, muitos ainda trabalham desta forma), eu mostro para eles que mais do que um professor, sou um amigo, que merece um respeito maior, por estar na função de docente, responsável por transmitir conhecimentos, e nesse entrosamento meus alunos acabam entendendo a real importância de juntos fazermos a diferença na sala de aula, inovando nossos métodos de ensino e aprendizagem.

 

Como você motiva seus alunos?

Motivo os meus alunos da mesma forma que eles motivam a minha pessoa como professor. Talvez se pergunte “como assim?” Pois bem, um verdadeiro professor só será capaz de motivar seus alunos a partir do momento em que estiver apto para ouvir, aprender e contribuir junto com ele, assim, juntos irão construir uma educação motivadora para ambas as partes, o professor motivado a ensinar e o aluno com vontade de aprender.

 

O que acha importante ser discutido nas reuniões de classe?

O currículo e o plano de ensino, as adaptações de projetos educacionais que vão além dos muros da escola, envolvendo a comunidade, envolvendo situações reais vivenciada pela população brasileira, pois é possível encontrarmos soluções para a metodologia conforme o plano de ensino, a partir de realidades locais e comunitárias.

 

Como são escolhidos os temas debatidos em sala de aula?

Eu sempre procuro no início do ano realizar uma aula inaugural com os alunos, onde eu ouço o que eles têm a dizer, e eles também me ouvem, compartilhamos diversas ideias sobre como poderíamos aprender os conteúdos do plano de ensino a partir do desenvolvimento de projetos educacionais, diante disso, entramos em um consenso e juntos definimos os temas a serem agregados durante o ano letivo.

 

Em relação às inovações tecnológicas, como você faz para inovar em sala de aula?

Acredito muito no poder que a tecnologia tem para contribuir com novos conhecimentos, mas infelizmente, nem todas as unidades de ensino possuem um laboratório de informática para inovar suas aulas, isso impossibilita muitos professores de utilizarem as tecnologia em sala de aula. Eu sempre gostei muito de usar o celular durante as minhas aulas de ciências e química para ensinar meus alunos, criamos até um sistema no ano de 2014 chamado Aula na Rede: Construindo um novo ambiente de aprendizagem, esse aplicativo era para trabalharmos com a redução de impressão de provas e atividades na escola, além também de tornar as aulas de ciências e química mais atrativa para os alunos, afinal, durante um ano não utilizamos caderno e nem lápis para nada, simplesmente usávamos o sistema Aula na Rede, para ensinar e aprender. Foi uma experiência fantástica e muito inovadora, e os resultados foram muito positivos.

 

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Como o uso das novas tecnologias ajudaria no processo de aprendizagem dos alunos?

A partir do momento que o professor conscientizar seus alunos que a tecnologia pode ser uma boa ferramenta para construção da aprendizagem, aí sim, ela será utilizada de forma a somar no processo do ensino-aprendizagem, porém isso é um trabalho feito com muita delicadeza, eu por exemplo, tenho resultados positivos nas minhas aulas, mas entendo que cada disciplina é diferente uma da outra, então existem conteúdos que são atrativos e outros não, caberá ao professor mostrar para o aluno que aquele conteúdo é de suma importância para sua aprendizagem, utilizando diversas aulas diferenciadas se precisar. Antes de introduzir as tecnologias, os alunos achavam muito chato aprender tabela periódica, a partir do momento em que eles foram encarregados de montar um aplicativo junto comigo no laboratório de química, mediante a análise dos elementos, eles então entenderam a importância da tabela e da tecnologia.

 

Como você consegue aplicar a teoria na prática?

Envolvendo as realidades atuais, por exemplo, sobre o projeto Filtrando as Lágrimas do Rio Doce, realizamos pesquisas científicas para que após análise da água os alunos então introduzissem os conhecimentos junto comigo no laboratório.

 

O que você diria a outros professores sobre inovação?

Eu diria a todos os professores, acreditem, independente das críticas, murmúrios, sempre acreditem que vocês podem muito mais, e não olhem para as barreiras e dificuldades, nunca deixe que um gestor, um colega, uma secretária ou um governo, diga a você que não é possível fazer a diferença na sala de aula, porque os alunos não querem nada com nada. Por diversas vezes na minha caminhada como professor, ouvi isso e sempre disse para mim mesmo “Eu posso. Eu vou lutar. Eu vou conseguir”, e graças a Deus e aos meus alunos, em tão pouco tempo cheguei onde cheguei, com humildade, sinceridade e persistência, assim também, digo para vocês que o segredo é ser otimista sempre, mesmo que pareça um sonho, seja otimista. Lembre sempre disso e tenho certeza que muitos de vocês iram conquistar objetivos, méritos e honras que nenhumas dessas pessoas depois irão acreditar, a não ser os seus alunos, a quem você deu todo apoio e nunca deixou desistir. E conte comigo sempre para ajudá-los no que precisar.

Confira o vídeo:

 


O Vencedor do prêmio Global Teacher Prize será divulgado nos dias 14 e 19 de março em Dubai, capital dos Emirados Árabes Unidos. O Vencedor receberá a condição de Embaixador Mundial da Educação, além de um prêmio de US$ 1 Milhão. Estamos todos na torcida!

E você? Como faz para engajar seus alunos e inovar em sala de aula? Deixe um comentário.

 

         
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